Pomba Gira: quem é, o que faz e como respeitar

Por Yalorixá — Segredos da Encruzilhada 2 de setembro de 2026 Leitura de 9 min
Resposta direta

Pomba Gira é a face feminina da falange de Exu na Umbanda. Trabalha na esquerda, com questões de amor, autoestima, sexualidade e libertação de vínculos que adoecem. Não é demônio, não é "espírito de prostituta" e não faz amarração — casa séria não trabalha assim.

Poucas entidades da Umbanda carregam tanto peso de fofoca quanto a Pomba Gira. O que se fala dela na rua, em filme, em novela e em vídeo de internet quase nunca tem relação com o que acontece dentro de um terreiro sério.

Este texto é para quem quer saber quem ela é de verdade: a origem do nome, o que a literatura séria registra, o que a religião ensina, o que ela trabalha e — talvez a parte mais importante — como se comportar diante dela sem cometer desrespeito por ignorância.

Representação de Pomba Gira: mulher em vestido vermelho e preto de babados, com rosa vermelha no cabelo e leque de renda, sentada em trono de velas vermelhas acesas
A imagem que a cultura popular guarda dela: vermelho, preto, rosa, leque e vela. Cada elemento tem função no fundamento — nenhum é enfeite.

Quem é a Pomba Gira na Umbanda?

Pomba Gira é uma entidade feminina da linha de Exu. Ela trabalha na esquerda — o lado da religião que lida com o que está torto, travado, enrolado, adoecido. Não "esquerda" no sentido de mal: esquerda no sentido de quem entra onde a luz de frente não alcança.

Ela chega na gira com riso, com perfume, com trejeito, com uma presença que ocupa o espaço inteiro. Isso confunde muita gente de fora, que vê a manifestação e conclui coisas erradas. Quem está dentro entende que aquele jeito é linguagem de trabalho — a entidade se apresenta assim porque é assim que ela alcança quem precisa ser alcançado.

Se você ainda não leu sobre a falange como um todo, vale começar pelo guia completo sobre quem é Exu na Umbanda. Pomba Gira não se entende isolada — ela é parte de uma estrutura maior.

De onde vem o nome "Pomba Gira"?

Aqui está uma das informações que mais surpreende quem chega: o nome não tem nada a ver com pomba e nem com girar. É uma corruptela.

Nos candomblés de tradição banto (nação angola), o nome de Exu é Bongbogirá. Com o tempo, na boca do povo brasileiro, Bongbogirá virou Pombagira — e esse nome acabou ficando reservado à qualidade feminina de Exu. A grafia "Pomba Gira", separada, é uma reinterpretação posterior, feita por quem já não reconhecia a palavra original.

Saber disso muda a forma de olhar. O nome dela não é apelido pitoresco: é um vestígio linguístico africano que sobreviveu à travessia, à escravidão e à repressão religiosa. Está ali, na boca de todo mundo, e quase ninguém sabe.

Dado com fonte

O sociólogo Reginaldo Prandi, professor da USP, registra: "Na língua ritual dos candomblés angola (de tradição banto), o nome de Exu é Bongbogirá. Certamente Pombagira (Pomba Gira) é uma corruptela de Bongbogirá, e esse nome acabou por se restringir à qualidade feminina de Exu." No mesmo texto, ele situa a origem do culto: "Sua origem está nos candomblés, em que seu culto se constituiu a partir de entrecruzamentos de tradições africanas e européias. Pombagira é considerada um Exu feminino."

Fonte: PRANDI, Reginaldo. "Pombagira e as faces inconfessas do Brasil". In: Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996, capítulo IV, pp. 139-164. Texto disponível na página do autor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Pomba Gira é a mulher de Exu?

Essa é a explicação mais repetida na internet, e ela é imprecisa.

Pomba Gira não é "esposa" de Exu no sentido de casamento humano. Ela é a face feminina da mesma falange. É outra maneira da mesma força se apresentar — com corpo de mulher, com história de mulher, com as dores e as armas de uma mulher.

Existem, sim, casas que trabalham com duplas específicas por afinidade de linha. Exu Veludo e Maria Padilha aparecem juntos com frequência, por exemplo — e isso está descrito no artigo sobre os 7 principais Exus da Umbanda. Mas isso é leitura de casa, é fundamento de tradição específica. Não é regra universal da religião, e quem apresenta como regra está simplificando demais.

Quais são as principais Pomba Giras da Umbanda?

Como acontece com os Exus, Pomba Gira é singular e plural ao mesmo tempo. Existem dezenas de nomes, cada um com sua cantiga, seu jeito, sua preferência. As mais reconhecidas na literatura e nas casas de tradição são:

Uma ressalva honesta: cada casa tem sua leitura. Uma tradição coloca Maria Molambo na linha das Almas, outra no Cruzeiro. Uma casa chama uma entidade por um nome, outra chama por outro. Se o que você aprendeu na sua casa não bate exatamente com esta lista, quem tem razão para você é a sua casa.

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O que a Pomba Gira trabalha de verdade?

A resposta curta: ela trabalha a pessoa, não o outro.

Quem chega numa gira de esquerda quase sempre chega com uma queixa parecida — um amor que não anda, um casamento que virou prisão, uma traição que não cicatriza, uma solidão que já dura anos, uma sexualidade travada por vergonha ou por trauma. Isso é o material de trabalho dela.

O que a Pomba Gira faz com esse material não é o que a pessoa imagina. Ela raramente entrega o que foi pedido do jeito que foi pedido. Ela costuma devolver uma pergunta desconfortável: por que você aceita isso? há quanto tempo você se coloca em último lugar? o que você está protegendo ao continuar aí?

É trabalho de libertação, não de posse. Muita gente chega pedindo que a entidade traga alguém de volta e sai da consulta com a clareza de que precisa sair de uma relação. Isso incomoda — e é exatamente por isso que funciona.

Prandi observa que o apelo à Pomba Gira, especialmente entre a população pobre urbana, gira em torno de "problemas relacionados a fracassos e desejos da vida amorosa e da sexualidade, além de inúmeros outros que envolvem situações de aflição". A leitura sociológica bate com o que se vê no banco do terreiro: quem procura a esquerda procura porque a vida apertou.

Pomba Gira faz amarração amorosa?

Casa séria não faz amarração. Ponto.

Amarração pressupõe dominar a vontade de outra pessoa — obrigar alguém a amar, a voltar, a ficar. Isso não é trabalho de religião: é comércio. Quem vende "amarração em 3 dias", com preço de tabela e garantia de resultado, não está fazendo Umbanda. Está vendendo esperança para gente desesperada, e cobrando caro por isso.

Há ainda um detalhe que quase ninguém conta a quem procura esse tipo de serviço: trabalho feito para forçar a vontade alheia cobra de volta. A religião entende que o que se faz retorna — e retorna para quem pediu, não para quem executou.

O que existe de verdade é trabalho de abertura de caminho amoroso: limpar o que trava a pessoa, fortalecer a autoestima, cortar vínculo antigo que não solta, devolver a ela a capacidade de escolher bem. O resultado costuma aparecer no amor. Mas o caminho passa por dentro, não pelo outro.

Como respeitar a Pomba Gira?

Respeito, aqui, é uma coisa prática. Algumas orientações que valem para qualquer pessoa, dentro ou fora da religião:

Vale lembrar também de onde vem boa parte do deboche em torno dela. A associação entre entidades de esquerda e "demônio" tem origem histórica documentada, e está explicada no artigo Exu é o diabo? A verdade histórica que a igreja não conta. Entender essa raiz ajuda a responder com informação, e não com raiva.

Aviso importante. Este artigo é informativo e não autoriza ninguém a fazer trabalho, oferenda, firmeza ou assentamento de Pomba Gira por conta própria. Trabalho espiritual sem fundamento e sem orientação de uma casa de santo pode gerar consequências espirituais e emocionais reais. Umbanda também não substitui acompanhamento médico ou psicológico — casa séria trabalha em paralelo ao tratamento, nunca no lugar dele. Se você quer se aproximar da religião, procure um terreiro e converse com quem responde por ele.

Perguntas frequentes

Pomba Gira é a mulher de Exu?

Não no sentido de casamento humano. Pomba Gira é a face feminina da falange de Exu — trabalha na mesma linha, na esquerda, com a mesma lógica de fundamento e troca. Algumas casas associam duplas específicas por afinidade de trabalho, como Exu Veludo e Maria Padilha, mas isso é leitura de casa, não é regra da religião inteira.

Pomba Gira faz amarração amorosa?

Casa séria não faz amarração. Amarração pressupõe dominar a vontade de outra pessoa, e isso não é trabalho de Umbanda — é comércio de charlatão. O que a Pomba Gira trabalha é a pessoa que chega: autoestima, libertação de relação que adoece, coragem para sair, clareza para escolher. O resultado costuma ser amoroso, mas o caminho é interno.

De onde vem o nome Pomba Gira?

Do banto. Nos candomblés de tradição angola, o nome de Exu é Bongbogirá. O sociólogo Reginaldo Prandi (USP) registra que Pombagira é uma corruptela de Bongbogirá, e que esse nome acabou se restringindo à qualidade feminina de Exu. Não tem relação nenhuma com a ave pomba nem com o verbo girar.

Posso ter uma imagem de Pomba Gira em casa sem ser da religião?

Uma imagem por si só é um objeto — não é assentamento e não é firmeza. O problema começa quando a pessoa passa a oferecer, pedir e acender vela por conta própria, sem fundamento e sem casa. Aí já não é decoração: é trabalho espiritual sem preparo. Quem sente atração pela entidade deve procurar uma casa antes de qualquer coisa.

Qual é o dia da Pomba Gira?

A maioria das casas trabalha a esquerda na segunda-feira ou na sexta-feira, e muitas fazem a gira de Pomba Gira na sexta. Isso varia de tradição para tradição — algumas casas seguem terça. A palavra que vale para você é a da sua casa de santo, não a da internet.

Oya Tùnde, Yalorixá

Oya Tùnde

Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu

Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →