Exu Mirim: quem é, como age e por que não é criança levada

Por Yalorixá — Segredos da Encruzilhada 8 de setembro de 2026 Leitura de 7 min
Resposta direta

Exu Mirim não é uma criança que morreu e ficou perdida na Terra. É uma entidade própria da linha de Exu, com energia irrequieta, curiosa e brincalhona — e é justamente esse jeito de agir, e não uma biografia humana, que faz tanta gente confundi-lo com criança. A fama de "levado" nasce de um preconceito antigo somado a médiuns mal orientados, não da natureza dele.

Depois de escrever sobre quem é Exu, Pomba Gira e as diferenças entre os Exus com nome próprio, faltava tratar de uma entidade que carrega um dos maiores preconceitos da linha — e um dos mais mal explicados.

Quem busca "Exu Mirim" no Google quase sempre encontra duas versões opostas: uma que o descreve como espírito de criança que sofreu, morreu nas ruas e voltou com raiva; outra que trata tudo com romantismo de desenho animado, como se fosse só travessura fofa. Nenhuma das duas é o que a Umbanda séria ensina, e nenhuma delas vem deste texto.

Vou explicar quem é Exu Mirim de verdade, de onde vem a confusão com criança, por que algumas casas evitam trabalhar com ele e o que muda quando o médium é bem doutrinado.

Piões de madeira, bolinhas de gude e balas vermelhas ao lado de um par de sandálias pequenas e velas vermelhas acesas sobre terra rachada, à noite
Imagem ilustrativa, criada para este artigo. Os objetos representam a energia brincalhona de Exu Mirim — não uma criança, que ele nunca foi.

Quem é Exu Mirim?

Exu Mirim faz parte da linha de esquerda da Umbanda, a mesma que reúne Exu e Pomba Gira. "Mirim" vem do tupi-guarani e significa pequeno — não é nome próprio de uma entidade só, é a designação de toda uma categoria dentro da falange, do mesmo jeito que "Tranca-Ruas" ou "Marabô" nomeiam outras categorias já explicadas neste blog.

O autor umbandista Rubens Saraceni, referência sobre o tema, descreve Exu Mirim como um ser encantado da natureza — não humano, não espírito de gente que já viveu — proveniente de um plano vibracional que ele chama de sétima dimensão à esquerda. Segundo essa leitura, Exu Mirim é irrequieto, curioso e trabalha exatamente onde entidades de vibração mais alta não conseguem chegar, porque ainda está ligado à matéria de um jeito que outros já superaram.

Essa é a chave para entender tudo o que vem a seguir: a energia de Exu Mirim lembra a de uma criança, mas ele nunca foi uma. É arquétipo, não biografia.

Por que Exu Mirim é chamado de "criança levada"?

Aqui está a pergunta que mais aparece, e a resposta tem duas camadas — uma histórica e outra prática.

A camada histórica vem do próprio sincretismo religioso. A Umbanda nasceu associando entidades a santos católicos para poder se praticar sem tanta perseguição. A linha de crianças da direita foi sincretizada com Cosme e Damião — santos representados como crianças brancas. Só que, na época em que essas tradições se organizavam, gêmeos negros não eram aceitos nesse lugar, e as entidades infantis de pele negra ficaram de fora dessa associação, empurradas para a linha de Exu, a da esquerda. Aí nasceu a leitura de que seriam crianças "condenadas ao purgatório" ou abandonadas na rua — uma imagem que reflete o racismo religioso do período, não a natureza da entidade.

Dado com fonte

Um estudo acadêmico publicado em 2025 entrevistou diretamente entidades de Exu Mirim incorporadas em médiuns de um terreiro de Umbanda, perguntando a elas mesmas quem são. Nenhuma das respostas se descreveu como criança ou adolescente. Uma delas, identificada como Exu Mirim Capinha Preta, respondeu: "É uma entidade que nunca nasceu na terra, não vem daqui [...] a gente vem de outro lugar, vem mostrar para vocês que há outras maneiras de viver." Outra, Exu Tortinho, foi direta: "Tire a idéia errada que Exu Mirim é má criança, adolescente que teve uma vida desregrada; é um ser encantado."

A pesquisadora também revisita a origem do estigma: "Essas eram consideradas crianças condenadas ao purgatório ou abandonadas na rua, mal-educadas e desbocadas que nenhum Orixá quis acolher, com exceção de Exu, que a todos acolhe. No entanto, estas características que foram estabelecidas devem-se mais aos comportamentos dos médiuns do que das entidades Exu Mirim, aproveitando-se desta falta de conhecimento desta entidade para ter atitudes e comportamentos não adequados."

Fonte: MINGHELLI, Beatriz. "O mistério de Exu Mirim: estudo qualitativo com as entidades da Umbanda". PLURA, Revista de Estudos de Religião, v. 16, n. 2, 2025, e160208. DOI 10.29327/256659.16.2-7. Estudo realizado num terreiro de Umbanda em Portugal — a experiência de casa para casa pode variar, como o próprio artigo mostra ao contrastar com outra pesquisa (Barros, 2010) que registrou relatos bem mais duros em outro terreiro.

A camada prática é a que a pesquisa acima também aponta, e é a mais importante para quem já frequenta terreiro: o comportamento grosseiro que às vezes aparece na incorporação de Exu Mirim vem do médium mal doutrinado, não da entidade. Um espírito irrequieto e semiconsciente, incorporado por alguém sem preparo, pode acabar extravasando o que está no próprio médium — e isso, repetido, constrói a fama errada que circula por aí.

Existem até pontos cantados antigos com a expressão "criança levada" grudada no nome de Exu Mirim. Eles existem, são cantados em algumas casas, e não provam nada sobre quem ele é de verdade — só mostram que a confusão está entranhada há muito tempo, inclusive dentro da própria religião.

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Exu Mirim faz mal?

Vou responder com a mesma franqueza de sempre, sem inventar medo e sem apagá-lo por completo.

Exu Mirim, doutrinado e trabalhando dentro do fundamento de uma casa séria, não é entidade de maldade. A função dele é de auxílio — a mesma linha de trabalho de Exu, com um jeito próprio de agir. O que preocupa não é a entidade: é a manifestação mal conduzida, o mesmo problema que pode acontecer com qualquer entidade incorporada por médium despreparado, seja qual for a linha.

É por isso que a orientação séria nunca é "afaste-se de Exu Mirim porque ele é perigoso". É: procure uma casa que doutrine de verdade, com dirigente experiente e acompanhamento — a mesma orientação que já dei sobre firmeza e sobre padê. O risco nunca esteve na entidade. Esteve, e continua, na falta de preparo de quem trabalha com ela.

Qual é a função de Exu Mirim no terreiro?

Segundo a mesma linha de referências, Exu Mirim trabalha protegendo, limpando, doutrinando e abrindo caminho — funções parecidas com as de outros Exus, mas exercidas com um estilo próprio: mais direto, mais rápido, sem rodeios.

Há um detalhe que explica por que ele é útil justamente onde outras entidades não chegam: por ainda estar ligado à matéria de um jeito que entidades de vibração mais elevada já superaram, Exu Mirim consegue atuar em lugares de energia mais densa e pesada — os mesmos ambientes onde entidades "mais altas" não conseguem trabalhar bem. Não é hierarquia de força, é diferença de território, a mesma lógica já explicada sobre por que não existe Exu mais forte que outro.

O jeito brincalhão que ele usa para se aproximar das pessoas é ferramenta de trabalho, não distração. Uma consulta que começa com brincadeira e curiosidade costuma desarmar quem chega tenso ou desconfiado — e é aí que a orientação séria consegue entrar.

Por que alguns terreiros não trabalham com Exu Mirim?

Porque o desconhecimento sobre essa entidade é maior do que sobre qualquer outra da linha de Exu, e desconhecimento gera receio.

Um dirigente que nunca estudou o fundamento de Exu Mirim, e que só conhece a fama de "criança levada e sem controle", tende a evitar abrir espaço para essa manifestação — por cautela, ou por já ter visto de perto uma incorporação mal conduzida em outra casa. Isso não é erro do dirigente: é decisão de fundamento, e cada casa tem autonomia para decidir o que abre e o que não abre.

Isso também significa que a resposta certa não é generalizar. Se a sua casa trabalha com Exu Mirim, ótimo — pergunte ao seu dirigente como funciona ali. Se não trabalha, também está certo: existe motivo, e o motivo é dela.

Exu Mirim e Menina Mirim são a mesma coisa?

São categorias próximas e não idênticas. Menina-mirim é a versão feminina dentro da mesma família de entidades — mesma origem, mesma energia irrequieta e curiosa, mesma função de auxílio — mas com voz e presença próprias, do mesmo jeito que Pomba Gira não é "a versão feminina de Exu", e sim uma categoria com identidade própria dentro da falange.

Numa das entrevistas da pesquisa citada acima, quando perguntada sobre quem é, uma Menina-mirim respondeu apenas: "São seres misteriosos que estamos onde muita gente não imagina." A resposta curta diz muito: nem ela se define pelo que a internet costuma repetir.

Aviso importante. Este artigo é informativo e não ensina, não descreve e não autoriza a incorporação, o chamado ou o trabalho com Exu Mirim por conta própria. Manifestação de entidade é assunto de terreiro, conduzido por médium desenvolvido e acompanhado por um dirigente responsável — não se aprende por artigo, vídeo ou pesquisa na internet. Se você sente ligação com essa entidade, procure uma casa de Umbanda séria e converse com quem a dirige.

Perguntas frequentes

Exu Mirim já foi uma criança que morreu?

Não, segundo a própria definição que as entidades dão de si e segundo autores de referência da Umbanda. Exu Mirim é descrito como um ser encantado que nunca teve corpo na Terra — não é espírito de criança falecida, não viveu nas ruas e não carrega biografia humana. É uma categoria própria de entidade, com nome, função e energia definidos dentro da linha de Exu.

Se não é criança, por que Exu Mirim se comporta como uma?

Porque a energia dele é irrequieta, curiosa e brincalhona — características que lembram o início da vida, mas não significam que ele foi criança. "Mirim" quer dizer pequeno, e descreve o jeito de atuar, não uma idade real. Um Exu Mirim doutrinado trabalha com seriedade por trás da brincadeira; o comportamento tosco que às vezes aparece reflete falta de preparo de quem incorpora, não a natureza da entidade.

Posso ter uma imagem de Exu Mirim em casa?

Ter uma imagem por devoção e respeito é diferente de firmar um ponto para ele, que é ato de casa. Se você sente ligação com Exu Mirim e ainda não é de terreiro, o caminho é o mesmo já explicado para outras entidades deste blog: uma imagem, um lugar limpo, uma vela acesa com respeito — sem tentar reproduzir trabalho, oferenda ou firmeza por conta própria.

Exu Mirim é o mesmo que Cosme e Damião?

Não. Cosme e Damião são a dupla de santos católicos usada no sincretismo com a linha de crianças da direita da Umbanda (os Ibejis). Exu Mirim pertence a uma linha diferente, a de Exu, na esquerda. A separação histórica entre as duas linhas tem raiz no racismo religioso da época em que a Umbanda se organizava — e é parte do que explica por que Exu Mirim herdou um estigma que os Ibejis não carregam.

Toda casa de Umbanda trabalha com Exu Mirim?

Não. Muitas casas não trabalham com Exu Mirim, geralmente por desconhecimento do fundamento dessa entidade ou porque, no passado, médiuns despreparados usaram a incorporação para extravasar comportamento inadequado, e isso afastou dirigentes. Se a sua casa não trabalha com Exu Mirim, isso não é falha nem incompletude — é uma decisão de fundamento, e cabe ao dirigente explicar o motivo.

Oya Tùnde, Yalorixá

Oya Tùnde

Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu

Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →