Zé Pelintra é Exu? Quem ele é na Umbanda e por que a confusão existe
Depende da casa — e essa não é uma resposta evasiva, é a resposta correta. Zé Pelintra tem falange própria, com jeito de trabalhar e origem diferentes dos Exus clássicos, mas em muitos terreiros ele é tratado dentro do mesmo campo de trabalho da esquerda, ao lado de Exu e Pomba Gira. Algumas casas o colocam entre os Exus, outras não, e nenhuma das duas está errada.
Já expliquei aqui as diferenças entre os Exus com nome próprio e quem é Exu Mirim. Zé Pelintra é o caso mais complicado dos três, porque a resposta certa é "depende" — e vou explicar exatamente do que ela depende.
Terno branco, chapéu panamá, baralho na mão, cigarro na boca. Se você já viu uma gira de malandro, reconhece a cena. A pergunta que fica é: essa figura é um Exu com roupa diferente, ou é outra coisa completamente?
Imagem deste artigo em preparo.
Quem é Zé Pelintra?
Zé Pelintra não é uma entidade só: é uma falange, do mesmo jeito que existem vários Exus chamados Tranca-Ruas em casas diferentes. Um pesquisador que entrevistou o pai de santo Alan Barbieri registra essa característica com clareza: a entidade "faz parte de uma falange, portanto, não existe apenas um Zé Pelintra, mas vários espíritos que se apresentam com esse nome e suas características" — cada um com sua própria história de vida, cidade e profissão.
O retrato que se repete entre casas diferentes é o do malandro carioca do início do século XX: terno e calça brancos, gravata vermelha, chapéu panamá, sapato bicolor. Bebe cerveja, fuma, e — na descrição de uma pesquisa sobre um terreiro de Foz do Iguaçu — quando incorpora, "comanda o trabalho das pombas giras" nas casas onde não existe uma linha própria de malandros para comandar. É figura de rua, de boteco, de mesa de carteado — e é exatamente essa proximidade com a vida humana comum que faz dele um dos espíritos mais queridos e mais mal compreendidos da Umbanda.
Zé Pelintra é Exu?
Aqui está o ponto central, e a resposta não é sim nem não — é "depende de onde ele se manifesta".
O próprio Alan Barbieri, citado na pesquisa que embasa este artigo, explica que a entidade "na Jurema ele atua como mestre, no entanto, na Umbanda ele pode baixar [se manifestar] em várias linhas, entre elas: do malandro, Exú e até mesmo do Preto Velho". Ou seja: dependendo da casa e da tradição, o mesmo nome pode aparecer ligado à linha de Exu, a uma linha própria de malandros, ou até à linha mais serena dos Pretos Velhos.
Isso explica por que você vai encontrar respostas diferentes em terreiros diferentes, e as duas podem estar certas dentro da própria tradição: casas que o recebem dentro da falange de Exu, ao lado de Tranca-Ruas e Marabô, e casas que o tratam como categoria própria, sem misturar com a linha de Exu. Nenhuma versão é a errada — é o mesmo fenômeno já explicado sobre os nomes que mudam de casa para casa, só que aqui a variação chega até a linha de trabalho, não só ao nome.
Dado com fonte
A dualidade de Zé Pelintra é registrada com precisão pela pesquisadora Monique Augras, autora de referência sobre o tema: "é pernambucano e cidadão carioca, sertanejo e morador da Lapa, macumbeiro e catimbozeiro, malandro e letrado. Pertence às bas-fond e à alta sociedade. Não há porque escolher uma só direção." A frase resume por que tentar encaixar a entidade numa única categoria — Exu, malandro, mestre — é reduzir algo que a própria tradição trata como múltiplo por natureza.
Fonte: AUGRAS, Monique. "Zé Pelintra, patrono da malandragem". Revista do Patrimônio, n. 25, p. 43-50, 1997, p. 46. Citada em: SILVA, Rodrigo de Sousa da. "Zé Pelintra: concepções sobre a Umbanda e o malandro". Revista Em Favor da Igualdade Racial, Rio Branco, v. 3, n. 2, p. 133-145, fev./jul. 2020.
Se você quer saber a resposta certa para a sua casa, pergunte ao seu dirigente como Zé Pelintra é recebido ali. É a única resposta que vale para a sua prática — este artigo explica o panorama, não substitui o fundamento da sua casa.
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Quero ser avisada quando sairDe onde vem a fama de malandro?
Não é acaso, e não é decoração de personagem: é história real, e é história de racismo.
No começo do século XX, o "malandro" era uma figura concreta e perseguida pelas elites brasileiras — um pesquisador que estudou o tema descreve o retrato que os projetos "civilizadores" da época construíram: "o malandro — negro, mal vestido, violento, capoeira de fala fina e navalha no bolso — era objeto de repressão e discriminação". A vadiagem chegou a ser crime no Código Penal da época, e quem se encaixava nesse perfil — homem negro, pobre, sem emprego fixo, morador de periferia — era alvo direto da lei.
Zé Pelintra nasce exatamente desse território: um homem negro que viveu à margem do que era socialmente aceito, e que a Umbanda recebeu como entidade de luz. Não é o retrato de um vilão que a religião decidiu vestir bem — é o retrato de alguém que a sociedade da época tentou apagar, e que a fé afro-brasileira acolheu com dignidade e nome próprio.
Entender essa origem muda o peso da palavra "malandro" no contexto religioso. Segundo outro pesquisador que estudou a entidade, ele "é visto como o malandro que representa a astúcia, o livre trânsito pela brecha e pelo proibido, o uso dos meios não-sancionados pelas normas morais" — astúcia como estratégia de quem não tinha os caminhos oficiais abertos, não como elogio à malandragem no sentido raso da palavra.
O que Zé Pelintra faz quando incorpora?
A cena muda de tom em relação a outras entidades já explicadas neste blog, e é proposital.
Uma pesquisa sobre um terreiro de Foz do Iguaçu descreve bem o clima que ele traz: "Quando ele incorpora, logo o terreiro se torna seu boteco, e os filhos de santo e a assistência, seus amigos e companheiros na bebida. Zé Pilintra transforma o ambiente sagrado e o tempo sagrado, e traz elementos profanos muito característicos do malandro, marginal, para o espaço da gira de Umbanda. Bebendo cerveja e fumando cigarro, faz piadas sobre o amor alheio, lisonjeia as mulheres presentes, conta episódios de sua vida e conversa descontraidamente com os filhos de santo, fazendo aqui e acolá uma previsão certeira de algo a acontecer no futuro próximo na vida de alguém."
É uma incorporação que parece descontraída — e é mesmo. Mas por trás da conversa fiada e da bebida, o trabalho continua sério: aconselhar, prever, destravar situação. A leveza é parte do método, não descuido.
Zé Pelintra é o mesmo em toda casa de Umbanda?
Não, e isso já ficou claro ao longo deste texto — vale reforçar o porquê.
Como é falange, e não entidade única, cada casa recebe um Zé Pelintra com sua própria história, seu próprio jeito e, às vezes, até seu próprio nome completo. Algumas casas o recebem na linha de Exu; outras mantêm uma linha própria de malandros; e ele também é cultuado fora da Umbanda, na Jurema Sagrada, onde ocupa o papel de mestre — diferente do que ocupa aqui.
Se você já ouviu descrições contraditórias sobre ele — um dizendo que é Exu, outro dizendo que não tem nada a ver — as duas pessoas provavelmente estão certas, só que estão falando de casas diferentes. O erro não é a divergência; o erro é achar que existe uma resposta única para todo o Brasil.
Aviso importante. Este artigo é informativo e não ensina, não descreve e não autoriza a incorporação, a consulta ou o trabalho com Zé Pelintra por conta própria. O que se oferece a ele, como ele se manifesta e em que linha ele é recebido variam de casa para casa, e essa decisão pertence ao fundamento de cada terreiro — não se aprende por artigo, vídeo ou pesquisa na internet. Se você sente ligação com essa entidade, procure uma casa de Umbanda séria e converse com quem a dirige.
Perguntas frequentes
Zé Pelintra é um espírito só ou vários?
É uma falange, não um espírito único. Existem vários Zés Pelintras diferentes, cada um com sua própria história de vida, cidade de origem e jeito de trabalhar — por isso as descrições variam tanto de terreiro para terreiro. Perguntar "qual é a história real dele" é como perguntar qual é a história real de Tranca-Ruas: depende de qual Tranca-Ruas.
Posso pedir a Zé Pelintra o mesmo que peço a Exu?
Na prática, muita gente pede — mas o jeito de trabalhar é diferente. Enquanto o Exu típico é guardião de caminho, Zé Pelintra resolve com astúcia, articulação e jogo de cintura: ele é mais associado a destravar situação social, emprego, conversa difícil, do que a fechar ou abrir caminho no sentido literal. O que se pede muda conforme a especialidade de cada entidade, e isso se define na consulta dentro da casa.
Por que Zé Pelintra bebe cerveja e fuma quando incorpora?
Porque isso faz parte do personagem que ele representa: o malandro carioca do início do século XX, com terno branco, baralho e boemia. Beber e fumar na gira não é falta de controle — é a entidade trazendo, de forma proposital, o ambiente profano da boemia para dentro do espaço sagrado, o que é justamente uma das marcas que a distingue de entidades mais austeras como os Pretos Velhos.
Zé Pelintra existe só na Umbanda?
Não. Ele também é cultuado na Jurema Sagrada, tradição de origem nordestina, onde atua como mestre — um papel diferente do que ocupa na Umbanda. É uma entidade que atravessa mais de uma religião de matriz afro-brasileira, o que ajuda a explicar por que as descrições dele mudam tanto dependendo de quem você pergunta.
O que se oferece a Zé Pelintra?
Isso é decisão de cada casa, e não se define por conta própria. Autores que estudam a entidade registram cigarro, cachaça, moedas e baralho como elementos comumente associados a ele — o baralho, em especial, como instrumento predileto do personagem. Isso não é lista de compras para montar oferenda sozinho: é contexto para entender a entidade, e cada casa decide o que oferece e como.
Oya Tùnde
Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu
Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →