Ancestralidade na Umbanda: o que é e por que ela sustenta a religião
Na Umbanda, ancestralidade é a ligação com os mortos que seguem presentes e trabalhando: a família, a linhagem da casa e os ancestrais coletivos, os Pretos Velhos e os Caboclos. Não é árvore genealógica nem teste de DNA. A religião inteira se apoia nesse vínculo, porque são eles que chegam na gira.
Duas palavras estão no cabeçalho deste site desde o primeiro dia, e a terceira só agora ganha um artigo inteiro. "Umbanda · Exu · Ancestralidade" não foi enfeite. Quem entra num terreiro percebe depressa que a conversa com os mortos não é um assunto entre outros: é o chão onde tudo o mais se apoia.
O problema é que a palavra "ancestralidade" anda por todo lugar, de aplicativo de genealogia a propaganda de perfume, e o sentido que ela tem dentro da religião ficou escondido embaixo disso. Aqui vai o sentido de terreiro, com a história de onde ele vem e com a pesquisa de quem estudou o assunto de perto.
O que é ancestralidade na Umbanda?
É a convicção de que os mortos não se vão por completo: continuam ligados aos vivos e podem ajudar, orientar e trabalhar. Na prática de terreiro essa ligação aparece em três camadas, que as pessoas costumam misturar:
- A ancestralidade de sangue. Os avós, bisavós e antepassados da sua própria família, conhecidos ou não.
- A ancestralidade de santo. A linhagem da casa: quem iniciou quem, de onde veio o fundamento e por quais mãos ele passou até chegar ao terreiro.
- A ancestralidade coletiva. Os ancestrais de um povo inteiro, que na Umbanda tomam forma nos Pretos Velhos e nos Caboclos.
Quando alguém diz "honrar a ancestralidade" num terreiro, pode estar falando de qualquer uma das três, e a confusão entre elas explica boa parte da conversa solta que circula por aí. A terceira camada é a que mais distingue a Umbanda de outras religiões, e é a que o resto deste texto explica.
Ancestralidade é o mesmo que descobrir de onde minha família veio?
Não, e vale separar logo, porque a maior parte de quem pesquisa a palavra procura outra coisa. Teste de DNA, sobrenome e árvore genealógica contam de onde você veio no sentido biológico. Isso é legítimo e interessante, e não tem nada de religioso.
No sentido religioso, a pergunta é outra: quem está com você agora? Alguém pode não saber o nome do bisavô e ainda assim ter ancestralidade viva, porque ela se constrói pela relação, pelo respeito e pela casa onde se frequenta, não pelo sobrenome. E alguém pode ter a genealogia inteira na parede e nenhuma relação com os seus mortos.
De onde vem o culto aos ancestrais na Umbanda?
Vem, em boa parte, da África banta. A antropóloga Eufrázia Cristina Menezes Santos, professora da Universidade Federal de Sergipe, escreveu um estudo sobre o culto aos Pretos Velhos na Umbanda, e começa pelo que o culto significava do outro lado do oceano:
Dado com fonte
"O culto dos antepassados, especialmente entre os bantos, desempenha importante papel na cultura religiosa africana. Os antepassados ligam-se às famílias, às linhagens, às tribos, constituindo-se na África em importante objeto de culto."
Fonte: SANTOS, Eufrazia Cristina Menezes. "O Preto Velho na Umbanda". Debates do NER, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ano 11, n. 17, p. 121-146, 2010. DOI 10.22456/1982-8136.8428.
Na África, portanto, o ancestral pertencia a uma família, a uma linhagem, a um grupo. Era o morto de alguém, com nome e com lugar. A travessia forçada e a escravidão despedaçaram essas famílias. Santos resume o que os autores clássicos dizem: os negros bantos perderam no Brasil muito das suas crenças, mas conseguiram preservar as cerimônias de invocação dos espíritos e o culto à ancestralidade, redefinido sobre novas bases sociais. Essa redefinição, escreve ela, esteve ligada, entre outros fatores, ao esfacelamento da família africana dentro da estrutura escravista.
Dá para imaginar o que isso significa. Quando a família é arrancada do chão, quem era o ancestral de quem? O culto sobreviveu, mas precisou mudar de endereço. Os estudos que ela reúne apontam a origem do culto aos Pretos Velhos justamente nas macumbas cariocas de procedência banta. É a mesma raiz de que falei no artigo sobre Umbanda e macumba.
Quem são os ancestrais da Umbanda?
Os Caboclos e os Pretos Velhos. É a resposta curta, e ela guarda uma ideia bonita: a Umbanda não herdou os ancestrais de uma tribo ou de uma linhagem africana específica, porque esse fio tinha sido cortado. Ela reconheceu como ancestrais os dois povos que formaram o chão onde ela nasceu. Santos descreve esse movimento assim:
Dado com fonte
"Na Umbanda, a noção de ancestralidade, ao perder seu valor e sentido originais conferidos pelas estruturas sociais africanas, aproximou-se mais da ideia de familiaridade, no sentido daquilo que é habitual, conhecido, íntimo."
Fonte: SANTOS, Eufrazia Cristina Menezes. "O Preto Velho na Umbanda". Debates do NER, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ano 11, n. 17, p. 121-146, 2010. DOI 10.22456/1982-8136.8428.
Repare no "habitual, conhecido, íntimo". O ancestral da Umbanda não é uma figura distante e temida. É alguém de casa, com quem se conversa, que se escuta sentado num banquinho e que chama a gente de "meu filho". A autora conclui que os ancestrais das tribos e das linhagens cederam lugar aos antepassados indígenas, os Caboclos, e aos antepassados africanos escravizados, os Pretos Velhos, ambos passando a ser interpretados como "uma espécie de ancestral brasileiro".
Ela registra ainda um detalhe de terreiro que quase ninguém de fora conhece. Em algumas casas, as imagens dos Pretos Velhos ficam numa pequena construção ao lado direito da entrada, que se chama senzala ou casa das almas. O nome diz bastante: é o lugar de quem veio antes, guardado junto à porta, onde a casa começa.
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Quero ser avisada quando sairOs Pretos Velhos são egum?
Depende de quem responde, e a diferença entre as tradições ajuda a entender cada uma. No Candomblé de tradição nagô, segundo as pesquisas de Juana Elbein dos Santos resumidas no mesmo artigo, o culto dos espíritos ancestrais, os eguns, acontece separado do culto dos orixás, em casas e em ritos distintos. Nesse olhar, os Pretos Velhos seriam simplesmente espíritos de mortos.
Na Umbanda, o desenho é outro. Os Pretos Velhos trabalham na gira, ao lado das demais entidades. Para os umbandistas mais distantes do Candomblé, escreve Santos citando o pesquisador Negrão (1996), a condição de egum dos Pretos Velhos não é negada, mas eles não são vistos como um espírito qualquer. A herança banta, misturada com o espiritismo e o catolicismo, foi sendo redefinida dentro da Umbanda, e essa mistura é uma das marcas da religião. Para entender como as linhas de trabalho se organizam, o texto sobre as Sete Linhas da Umbanda é o melhor ponto de partida, e o guia sobre quem é Exu na Umbanda mostra onde a esquerda se encaixa.
Toda casa de Umbanda vê o Preto Velho como ancestral?
Não, e esse é um ponto que as explicações simples escondem. Santos registra que a condição de ancestral do Preto Velho não é afirmada por todos os segmentos da Umbanda. Nos mais próximos das ideias espírita-esotéricas, o Preto Velho é uma forma, um modo de se apresentar que espíritos evoluídos escolhem para se comunicar, como prova de humildade. Nessa leitura, ele não é um velho africano que viveu, é uma roupa que o espírito veste.
A mesma pesquisa conta que, nas primeiras sistematizações da religião, esse "triângulo da Umbanda" era formado por três formas: o Caboclo, o Preto Velho e as crianças. Cada uma carregava um valor: a força e a simplicidade, a humildade e a paciência, a pureza. Quem se interessa pelas entidades infantis encontra um caso à parte no texto sobre Exu Mirim.
A autora tem a honestidade de dizer que há um preço nessa leitura. Nas casas em que a ideia de ancestral se dilui por completo, sobra uma imagem moralizante do negro, feita de bondade, resignação e trabalho. É o ancestral reduzido a bom exemplo, e não o ancestral como fonte de poder e de sabedoria. Quem é de dentro sabe a diferença: um Preto Velho não está ali para ser um velhinho manso, está ali para ser respeitado.
Por que a Umbanda diz que a ancestralidade a sustenta?
Por uma razão prática, não poética. A Umbanda funciona pela mediunidade, pela incorporação de entidades que são, em sua maioria, espíritos de gente que já viveu. Sem os mortos que seguem trabalhando, não há gira, não há consulta, não há caridade. A ancestralidade não é um tema da religião: é o motor dela.
Há também uma razão histórica. Santos mostra que o sentido do Preto Velho como ancestral africano foi dado primeiro pelo próprio campo religioso. Com o passar dos anos, a dinâmica da religião e o interesse de intelectuais umbandistas em construir a Umbanda como religião brasileira transformaram o Caboclo e o Preto Velho em símbolos nacionais. Santos apoia-se na antropóloga Diana Brown, que mostra como a religião foi moldada pelo nacionalismo da era Vargas. Um sinal disso está no calendário: os umbandistas fizeram do 13 de maio, dia da abolição da escravatura, o dia dos Pretos Velhos.
Isso tem um lado luminoso e um lado difícil. O luminoso é que a Umbanda deu aos negros escravizados um lugar de honra num país que os apagava. O difícil é que, segundo os autores que Santos discute (Bastide, Brown e Ortiz), esse processo valorizou o afro-brasileiro em detrimento do que era africano. É a mesma tensão que apareceu quando falei da diferença entre Umbanda e Quimbanda: a vergonha da parte africana deixou marcas, e reconhecer isso é parte de honrar quem veio antes.
Como honrar os ancestrais sem fazer ritual por conta própria?
"Honrar a ancestralidade" virou frase de autoajuda, e é preciso separar o gesto humano do ato religioso. Lembrar de quem se foi, contar as histórias, guardar uma fotografia, agradecer pelo que se recebeu: isso é de todas as pessoas, de qualquer fé ou sem fé, e não depende de terreiro.
Chamar um espírito, entregar oferenda, pedir proteção ou "limpar a linhagem" é outra coisa. Isso é trabalho espiritual, tem fundamento e tem responsabilidade, e quem faz sozinho a partir de um texto da internet corre o risco de fazer errado, como expliquei no artigo sobre firmeza para Exu em casa. A relação com os mortos se constrói no tempo, dentro de uma casa que responde por ela. Se a vontade é essa, o caminho é procurar uma casa séria e conversar com quem a dirige.
Aviso importante. Este texto é informativo e trata de história e de conceitos. Ele não ensina nem autoriza nenhuma prática religiosa, invocação, oferenda ou trabalho espiritual — isso só se aprende dentro de uma casa séria, com quem tem fundamento. Luto e saudade não são problema de religião: se a perda de alguém está pesando, procure também a ajuda de pessoas próximas e de profissionais de saúde mental. Se você sofre discriminação por causa da sua fé, saiba que intolerância religiosa é crime no Brasil (Lei 7.716/89 e Constituição Federal, artigo 5º, VI).
Perguntas frequentes
Ancestralidade é a mesma coisa que descobrir de onde minha família veio?
Não. Teste de DNA e árvore genealógica contam a origem biológica da sua família. No sentido religioso, ancestralidade é a ligação com os mortos que seguem presentes e atuantes: os da família, os da linhagem da casa e os ancestrais coletivos, como os Pretos Velhos e os Caboclos. Uma coisa não depende da outra.
Todo terreiro de Umbanda trata os Pretos Velhos como ancestrais?
Não. A antropóloga Eufrázia Santos registra que essa leitura não é afirmada por todos os segmentos da Umbanda. Nos mais próximos do espiritismo e do esoterismo, o Preto Velho é visto como uma forma que espíritos evoluídos assumem para se comunicar, e a ideia de ancestral africano se dilui. Cada casa tem a sua leitura.
O que é a casa das almas que alguns terreiros têm?
É como se chama, em algumas casas, um pequeno espaço junto à entrada do terreiro onde ficam as imagens dos Pretos Velhos, também chamado de senzala. A pesquisa de Eufrázia Santos o descreve como uma pequena casa ao lado direito da entrada. Nem toda casa tem esse espaço, e o seu uso varia.
Preciso ser descendente de africanos para ter ancestralidade na Umbanda?
Não. Os ancestrais que dão nome à religião são coletivos: os antepassados indígenas, representados pelos Caboclos, e os antepassados africanos escravizados no Brasil, representados pelos Pretos Velhos. A casa recebe gente de todas as origens, e a ligação com eles não se herda por sangue, constrói-se dentro da religião.
Posso fazer alguma coisa em casa para honrar meus antepassados?
Lembrar, contar as histórias da família e agradecer são gestos de qualquer pessoa, de qualquer religião, e ninguém precisa de terreiro para isso. O que pede casa e fundamento é chamar espíritos, oferecer, pedir trabalho ou firmar. Se a vontade é essa, procure uma casa séria e converse com quem a dirige.
Oya Tùnde
Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu
Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →