As 7 Linhas da Umbanda: o que são e por que cada casa conta uma lista diferente
As Sete Linhas da Umbanda são os grandes grupos em que a religião organiza suas entidades de trabalho. A lista mais citada traz Oxalá, Iemanjá, Crianças (ou Oriente), Oxóssi, Xangô, Ogum e São Cipriano, mas não existe lista única: cada escola e cada casa conta a sua.
Quem chega a um terreiro escuta logo: "esse Caboclo é da linha de Oxóssi", "aquela Preta Velha trabalha na linha das almas". A expressão está tão presente que "Sete Linhas" aparece até no título de um livro de 1933. Só que, quando a pessoa vai procurar a lista, encontra várias, e desconfia que alguma delas está errada.
Em geral nenhuma está. Este texto mostra a lista que a pesquisa registra como a mais difundida, conta de onde vêm as outras e explica por que a pergunta certa não é "qual lista é a verdadeira", e sim "qual é a da casa onde eu estou pisando".
O que são as Sete Linhas da Umbanda?
São uma forma de arrumar a casa. A Umbanda recebe uma quantidade enorme de entidades, entre Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus e outras, e a teoria das linhas agrupa todas elas em sete famílias de trabalho. Cada linha é associada a um orixá e, no sincretismo católico, a um santo.
A pesquisadora Érica Jorge, mestra em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC e professora da Faculdade de Teologia Umbandista, resume o papel da teoria comparando com o Candomblé:
Dado com fonte
"Observa-se que, se no candomblé as entidades se agrupam a fim de preservar as referências aos grupos étnicos africanos, na umbanda é a teoria das linhas que vai organizar e classificar as várias entidades cultuadas."
Fonte: JORGE, Érica Ferreira da Cunha. "Umbanda: a problemática questão de suas origens, o arranjo de sua cosmovisão". Vivência: Revista de Antropologia, UFRN, n. 41, p. 153-164, 2013. A autora cita nessa passagem Vagner Gonçalves da Silva, Candomblé e Umbanda, 2005.
Dá para entender o que isso quer dizer. No Candomblé, o fio que liga os membros é a nação, a origem africana da casa. A Umbanda nasceu misturando povos, tradições e mortos de procedências diferentes, e precisou de outro critério para se organizar. A linha foi esse critério.
Quais são as Sete Linhas da Umbanda?
A lista que Érica Jorge descreve, apoiada em Matta e Silva (Macumbas e Candomblés na Umbanda, 1983), é a que a maior parte dos terreiros reconhece, com variações. As linhas, com os santos a que o sincretismo as associa:
- Linha de Oxalá, ou do Santo. Abre a lista e está ligada à fé. No sincretismo, Jesus Cristo.
- Linha de Iemanjá. Ligada às águas e ao acolhimento. No sincretismo, Nossa Senhora.
- Linha das Crianças, ou do Oriente. No sincretismo, São João Batista. É a linha cujo nome e conteúdo mais mudam de uma casa para outra, como se vê adiante.
- Linha de Oxóssi. A mata e a caça. No sincretismo, São Sebastião. É a linha dos Caboclos de Oxóssi, que a pesquisa descreve como caçadores, no sentido literal e também no de quem caça as doenças e as negatividades.
- Linha de Xangô. Ligada à justiça e ao equilíbrio. No sincretismo, São Jerônimo.
- Linha de Ogum. Ligada à defesa e à abertura de caminhos. No sincretismo, São Jorge.
- Linha de São Cipriano. Também chamada de Linha Africana nas obras das décadas de 1940 e 1950.
A própria autora faz a ressalva: existem interpretações diferentes, e a maioria dos terreiros concorda com essa lista, mas "nem todos as cultuam". Na seção seguinte está a explicação.
Um guia de Umbanda escrito por quem está dentro
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Quero ser avisada quando sairPor que existem tantas listas diferentes?
Por um motivo simples de entender e difícil de aceitar para quem quer uma resposta única: a Umbanda não tem livro sagrado nem um colégio de sacerdotes que decida a doutrina. O ensino passa pela tradição oral, de casa em casa, e cada terreiro responde pela sua leitura. Isso vale para as linhas como vale para quase tudo o mais.
A divergência é antiga. O livro de Leal de Souza, O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, é de 1933. Depois dele, cada autor que escreveu sobre o assunto propôs a sua lista. O sacerdote e pesquisador Mário Alves da Silva Filho, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, reuniu as listas de sete livros publicados entre 1933 e 1952. Vale dizer que o levantamento dele saiu no site de uma comunidade de estudos, não numa revista científica, por isso uso aqui só para mostrar a variedade, que a pesquisa acadêmica confirma. Alguns exemplos:
- Leal de Souza (1933): Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã, Iemanjá e Almas, com os nomes grafados de outro jeito na época.
- Oliveira Magno (1950): Exu, Ogum, Xangô, Oxóssi, Iemanjá, Oxalá e Omolu.
- Byron Torres de Freitas e Tata Tancredo da Silva Pinto (1951): Oxalá, Iemanjá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Oxum e Omolu.
Um dos autores desse levantamento chegou a contar oito linhas, e o pesquisador conclui que nunca houve consenso. Houve tentativa. O Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda, de 1941, no Rio de Janeiro, quis uniformizar a doutrina. O pesquisador José Henrique Motta de Oliveira, da UFRJ, registra o que aconteceu com essa ambição:
Dado com fonte
"Inicialmente, acreditava-se que a federação pudesse exercer algum poder sobre os terreiros filiados, obrigando-os a seguir as deliberações doutrinárias que viessem a ser aprovadas durante o 1º Congresso. Esta pretensão, entretanto, fracassou diante do individualismo dos chefes de terreiro."
Fonte: OLIVEIRA, José Henrique Motta de. "Entre a macumba e o espiritismo: uma análise do discurso dos intelectuais de umbanda durante o Estado Novo". Caos: Revista Eletrônica de Ciências Sociais, UFPB, v. 2, n. 14, p. 60-85.
Existem também escolas inteiras que contam de outro modo. Nas casas que seguem Rubens Saraceni, autor de As Sete Linhas de Umbanda, as sete linhas são sete "essências" (cristalina, mineral, vegetal, ígnea, eólica, telúrica e aquática), e cada uma tem dois orixás, o que soma catorze. Em outra vertente, a linha de Yori agrupa as Crianças e a de Yorimá agrupa os Pretos Velhos e as Pretas Velhas.
E dentro da lista mais difundida a variação continua. Érica Jorge registra numa nota:
Dado com fonte
"Embora a maioria dos terreiros tenha aderido à teoria das linhas, nem todos as cultuam. Há pequenas diferenças, como por exemplo, não cultuar a linha do oriente e a linha de S. Cipriano, louvando-se no lugar delas, a linha das crianças e a linha das almas."
Fonte: JORGE, Érica Ferreira da Cunha. "Umbanda: a problemática questão de suas origens, o arranjo de sua cosmovisão". Vivência: Revista de Antropologia, UFRN, n. 41, p. 153-164, 2013, nota 7.
Nenhuma dessas leituras é erro de um e acerto de outro. Cada lista é a maneira como uma escola entende a religião, e quem dirige a casa responde por ela. Se uma Mãe de Santo ensina uma lista e um livro traz outra, a pergunta útil é qual delas a casa segue, não qual delas ganha a disputa.
Linha é a mesma coisa que orixá?
Não, e essa confusão é a mais comum. O orixá é a divindade. A linha é o grupo de entidades de trabalho que atua sob a regência de um orixá. Por isso "sete linhas" não quer dizer "sete orixás": o panteão tem mais nomes que a lista, e é justamente por isso que algumas listas põem Oxum, Omolu ou Iansã no lugar de outro.
Há outra diferença que a pesquisa registra. Segundo Érica Jorge, na Umbanda os orixás não "baixam" nos médiuns, só os ancestrais, conhecidos como Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus, Boiadeiros, Marinheiros, Baianos e Ciganos. Quem chega à gira e conversa com uma entidade está falando com um desses, e não com o orixá em pessoa. A mesma lógica aparece no artigo sobre ancestralidade na Umbanda, que explica por que os mortos que seguem trabalhando são o motor da religião.
E as linhas de Exu? É a mesma lista?
Não, e vale esclarecer uma coincidência de nome. O guia dos sete principais Exus fala em "linhas de Exu": Encruzilhadas, Almas, Cruzeiro, Matas, Praias, Lira e Malandragem. Aquelas são as falanges dentro da família de Exu. As Sete Linhas deste artigo são o desenho geral da religião. São duas listas diferentes que usam a mesma palavra.
Na lista mais citada, Exu não aparece como uma das sete. Em outras, como a de Oliveira Magno, em 1950, ele abre a primeira linha. Em muitas casas, Exu é tratado à parte, trabalhando ao lado de todas as demais. Quem quer entender quem ele é encontra o caminho completo em quem é Exu na Umbanda, e a diferença entre os nomes está em diferença entre os Exus.
Vale a mesma atenção para as Crianças, que ocupam um lugar na terceira linha. Elas não se confundem com o Exu Mirim, que pertence à família de Exu. O texto sobre Exu Mirim conta como as duas coisas foram misturadas na história.
Como saber a qual linha eu pertenço?
Essa é uma pergunta frequente, e a resposta honesta é que quiz de internet e lista de características não respondem. A pesquisa registra como o médium costuma saber quais orixás o acompanham: pela vidência do sacerdote, pela fala de alguma entidade ou pelo jogo de búzios. Em todos os casos, é alguém com fundamento, dentro de uma casa, olhando para uma pessoa em particular.
Vale separar duas coisas que se misturam. Uma é o orixá que rege a cabeça de cada pessoa. A outra são as entidades que acompanham o trabalho do médium, que pertencem às linhas. As duas se descobrem com o tempo, na convivência com uma casa que responde por isso, e não por conta própria. É o mesmo raciocínio do artigo sobre firmeza para Exu em casa: o que importa é o vínculo que se sustenta no tempo, não o rótulo que se escolhe numa tarde.
Para quem é de fora, entender as linhas já ajuda muito. Ajuda a ler o que se escuta numa gira e a não estranhar quando duas casas falam de maneira diferente sobre a mesma coisa. Isso é a religião funcionando como sempre funcionou.
Aviso importante. Este texto é informativo e trata de história e de conceitos. Ele não ensina nem autoriza nenhuma prática religiosa, invocação, oferenda ou trabalho espiritual — isso só se aprende dentro de uma casa séria, com quem tem fundamento. Saber a que linha pertence uma pessoa ou uma entidade é assunto de quem dirige o terreiro, não de lista na internet. Se você sofre discriminação por causa da sua fé, saiba que intolerância religiosa é crime no Brasil (Lei 7.716/89 e Constituição Federal, artigo 5º, VI).
Perguntas frequentes
Quais são as Sete Linhas da Umbanda?
Na lista mais citada pela pesquisa: Oxalá (ou do Santo), Iemanjá, Crianças (ou Oriente), Oxóssi, Xangô, Ogum e São Cipriano. Mas não existe lista única. Cada escola e cada terreiro tem a sua, e as diferenças são antigas.
Por que as Sete Linhas mudam de um terreiro para outro?
Porque a Umbanda não tem livro sagrado nem um colégio de sacerdotes que decida a doutrina. O ensino é oral e cada casa responde pela sua leitura. Desde os livros da década de 1930, os autores listam as linhas de maneiras diferentes, e o Congresso de 1941 não conseguiu unificar isso.
Exu faz parte das Sete Linhas?
Na lista mais citada, não. Em algumas listas antigas, como a de Oliveira Magno (1950), Exu abre a primeira linha. Em muitas casas, Exu é tratado à parte e tem as suas próprias linhas de trabalho, que são outra lista.
Sete linhas é o mesmo que sete orixás?
Não. A linha é um grupo de entidades de trabalho, associado a um orixá. Segundo a pesquisadora Érica Jorge, os orixás não incorporam nos médiuns na Umbanda: quem incorpora são os ancestrais, como Caboclos, Pretos Velhos, Crianças e Exus.
Quem criou a teoria das Sete Linhas?
Não há um autor único documentado. A expressão já aparece no título de um livro de Leal de Souza, de 1933, e foi discutida no Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941. Desde então, vários autores propuseram listas diferentes.
Oya Tùnde
Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu
Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →