Umbanda é macumba? De onde vem a palavra e o que ela significa
Não no sentido em que a pergunta costuma ser feita. "Macumba" é palavra de origem banta que, nos registros mais antigos, de 1870, nomeava um instrumento musical. Depois virou rótulo genérico, quase sempre ofensivo, para todas as religiões de matriz africana. A Umbanda tem nome, história e fundamento próprios.
Quem é de terreiro já ouviu de tudo: "chuta que é macumba", "fizeram macumba pra você", "lá vai a macumbeira". A palavra chega antes da pessoa. Antes de saber o que é Umbanda, muita gente já decidiu que é macumba, e que macumba é coisa ruim.
Por isso a pergunta "Umbanda é macumba?" merece uma resposta com calma, e não só um "não" bravo. A história dessa palavra é curiosa: ela começou como nome de instrumento, passou pelas páginas policiais dos jornais do século XIX e chegou até hoje carregando um peso que não tinha no começo. Contar essa história é a melhor forma de entender por que ela incomoda tanto quem é da religião.
Umbanda é macumba, afinal?
Depende do que se quer dizer com "macumba", e é aí que mora a confusão.
Se a pergunta é histórica, a resposta tem nuance. No fim do século XIX e começo do XX, no Rio de Janeiro, "macumba" era o nome dado a cultos praticados por negros nas periferias da cidade, e esses cultos estão entre as raízes de onde a Umbanda brotou. O antropólogo Ordep Serra, que pesquisa a Umbanda desde os anos 1970, escreve isso com todas as letras:
Dado com fonte
"A macumba está nas origens da umbanda e assinala um culto outrora praticado pelos negros das comunidades periféricas, nas grandes metrópoles do Sul do país."
Fonte: SERRA, Ordep. "No caminho de Aruanda: a umbanda candanga revisitada". Afro-Ásia, Universidade Federal da Bahia, n. 25-26, 2001, p. 215-256 (nota 20, p. 223).
Agora, se a pergunta é "Umbanda é aquela coisa que as pessoas chamam de macumba quando querem dizer feitiço, coisa feita, magia para o mal", a resposta é não. Esse sentido não descreve a Umbanda, nem o Candomblé, nem nenhuma religião de matriz africana séria. Ele descreve o preconceito de quem usa a palavra.
A Umbanda tem nome próprio, fundamento, hierarquia e linhas de trabalho, que expliquei no guia sobre quem é Exu na Umbanda. Chamar tudo de "macumba" apaga essas diferenças, como chamar todas as igrejas cristãs pelo nome de uma só. E o culto aos antepassados que veio dessas macumbas de raiz banta, e que sustenta a religião até hoje, é o assunto de ancestralidade na Umbanda.
De onde vem a palavra "macumba"?
Aqui é preciso honestidade: ninguém sabe com certeza. Isso não é falta de pesquisa. A palavra foi estudada por muita gente e ninguém conseguiu fechar a questão.
Um estudo detalhado sobre o assunto foi publicado em 2025 por dois linguistas, Bruno Maroneze e Marcelo Ferreira Nunes. Eles reuniram tudo o que os dicionários já disseram sobre a palavra, desde 1789, e foram atrás das primeiras vezes em que ela aparece impressa em jornais brasileiros. Encontraram nada menos que doze hipóteses diferentes para a origem. Algumas das mais conhecidas:
- Do quimbundo, "cadeados, fechaduras", ligada às cerimônias de fechamento de corpo. É a hipótese do etimologista Antenor Nascentes. Os dois linguistas desconfiam dela: acham que nasceu só da semelhança de som com uma palavra registrada numa gramática de 1805.
- De "cumba", feiticeiro, com o prefixo de plural "ma-". É a preferida do sambista e pesquisador Nei Lopes, autor de um dicionário de palavras bantas no Brasil.
- Do quicongo, "prodígios, fatos miraculosos", ou de palavras para "reza, invocação" e "murmúrios", propostas por outros autores e ainda sem confirmação.
A conclusão dos dois linguistas é que a palavra não tem uma origem só. Vários termos parecidos, de línguas bantas diferentes faladas pelos africanos escravizados no Brasil, teriam se encontrado e se misturado. O historiador Luiz Antônio Simas resume assim:
Dado com fonte
"A expressão 'macumba', portanto, pode designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias religiosas. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: a primeira deriva do quimbundo e a segunda, do quicongo."
Fonte: SIMAS, Luiz Antônio. Umbandas: uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021, citado em MARONEZE, Bruno; NUNES, Marcelo Ferreira. "Etimologia e história da palavra 'macumba'". GTLex, Universidade Federal de Uberlândia, v. 10, e010003, 2025. DOI 10.14393/Lex-v10a2025-3.
O próprio Simas avisa, na sequência, que "esse jogo é travado no campo das sugestões". E os linguistas chegam a uma conclusão que vale guardar: todas as hipóteses apontam para uma palavra que nasceu aqui. Nas palavras deles, "a palavra macumba é uma inovação inteiramente brasileira". Tem raiz africana, mas é palavra do Brasil.
Macumba era mesmo o nome de um instrumento?
Era, e isso está documentado. Os registros mais antigos da palavra que os pesquisadores encontraram são de 1870, nas páginas policiais do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. O jornal acompanhava, dia após dia e em tom sensacionalista, a prisão de um líder religioso negro conhecido como Juca Rosa. Numa das reportagens aparece a descrição da cerimônia:
Dado com fonte
"[...] começou a ceremonia tocando os circumstantes um instrumento que lhe chamam macumba, cantando-se em linguagem inintelligivel [...]"
Fonte: Diário de Notícias, Rio de Janeiro, n. 108, 7 dez. 1870, p. 1, transcrito com a grafia original em MARONEZE, Bruno; NUNES, Marcelo Ferreira. "Etimologia e história da palavra 'macumba'". GTLex, v. 10, e010003, 2025.
Repare no "um instrumento que lhe chamam macumba". O jornalista precisou explicar a palavra, porque o leitor da época não a conhecia. Os dicionários de hoje ainda guardam esse sentido: um instrumento antigo de percussão, de origem africana, parecido com o reco-reco e de som rascante, que era tocado nos terreiros.
Uma hipótese antiga, defendida pela pesquisadora Eugênia Dias Gonçalves, é que o nome do instrumento passou para a cerimônia em que ele era tocado, como quando se diz "vamos para o samba" querendo dizer a festa, não só o ritmo. Os dados de 1870 dão alguma força a essa ideia. Mas no mesmo ano o jornal já chamava de "macumbeiro" quem frequentava o culto e o próprio Juca Rosa, então os dois sentidos provavelmente andaram juntos desde o começo.
Um guia de Umbanda escrito por quem está dentro
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Quero ser avisada quando sairQuando "macumba" virou xingamento?
Praticamente no mesmo momento em que entrou nos jornais. A palavra chegou ao português impresso pela porta da polícia: o caso Juca Rosa era tratado como caso de polícia, e o jornal chamava o homem de grande "feiticeiro" e comemorava ter livrado a cidade "de uma entidade tão perigoza" (assim, com z, na grafia da época). É difícil uma palavra nascer em lugar pior.
Dez anos depois aparece o registro mais revelador de todos, e ele não veio de onde se esperaria. Em 1880, uma nota no Jornal do Commercio pedia ao chefe de polícia que fechasse certas casas no centro do Rio. Quem assinava eram outros religiosos de matriz africana:
Dado com fonte
"Chama-se a attenção de S. Ex. para certas casas de dar fortuna, pelas ruas do Sabão, Senhor dos Passos e Alfandega, onde se reune a peior gente, para dansar a tal macumba [...]. Os candomblés."
Fonte: Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, n. 105, 15 abr. 1880, transcrito com a grafia original em MARONEZE, Bruno; NUNES, Marcelo Ferreira. "Etimologia e história da palavra 'macumba'". GTLex, v. 10, e010003, 2025.
"A peior gente", "a tal macumba". A palavra já nasce, nesse uso, com cheiro de desprezo. Os linguistas levantam uma hipótese dura: ao denunciar a macumba à polícia, aquele grupo tentava se proteger, mostrando-se como a religião "respeitável" diante de outra apresentada como inferior. Numa época de perseguição, apontar o dedo para o vizinho era uma forma de se salvar.
Isso mostra uma coisa que pouca gente sabe: macumba e candomblé não eram sinônimos. Eram grupos diferentes, e até rivais. Só bem mais tarde quem é de fora passou a jogar tudo no mesmo saco. Os dois linguistas descrevem esse processo assim: os leigos, "sem serem capazes de distinguir entre candomblé, macumba e outros cultos, passam a denominar todos eles (pejorativamente) por 'macumba'". O sentido de "feitiço" e de "magia negra" veio depois, derivado do nome dos cultos e desse olhar de fora. Não é a origem da palavra, é a deformação dela.
É a mesma história de perseguição que expliquei no artigo sobre por que Exu não é o diabo, e que pesou também sobre a figura do malandro, como contei em Zé Pelintra é Exu?.
Por que a própria Umbanda já usou a palavra contra os outros?
Essa parte é desconfortável, mas quem é de dentro precisa encarar. Durante o século XX, uma corrente da Umbanda que se chamava de "linha branca" quis se afastar das raízes negras da religião para ser aceita pela sociedade. E fez com a palavra "macumba" o mesmo que os candomblés de 1880 tinham feito: usou como acusação.
Ordep Serra registrou isso em campo. Nos centros de Umbanda branca que ele visitou, macumba, quimbanda e "magia negra" viravam a mesma coisa, sempre como o lugar do outro, de quem faz o mal. E ele explica o que estava escondido nesse vocabulário:
Dado com fonte
"Nos círculos de adeptos da umbanda branca, a rigor magia negra corresponde a magia de negros: pois eles consideram os candomblés, xangôs, batuques, macumbas etc. como centros de magia negra."
Fonte: SERRA, Ordep. "No caminho de Aruanda: a umbanda candanga revisitada". Afro-Ásia, Universidade Federal da Bahia, n. 25-26, 2001, p. 215-256 (nota 19, p. 223).
Até um dicionário registrou esse uso interno. O Aurélio, na edição de 1999, traz entre os sentidos de "macumba" o de "denominação atribuída à quimbanda [...] pelos seguidores da umbanda da chamada linha branca". É o mesmo mecanismo que expliquei no artigo sobre Umbanda e Quimbanda: a palavra serve para separar o "nós, do bem" do "eles, do mal", e quase sempre o "eles" é o mais negro, o mais africano, o mais pobre.
Reconhecer isso não diminui a Umbanda. Pelo contrário: uma religião que nasceu da mistura de raízes africanas, indígenas e europeias só fica inteira quando para de ter vergonha da parte africana dela.
E o despacho na esquina, é macumba?
No uso popular, sim: é o sentido mais conhecido da palavra hoje. Quem vê vela, farofa e garrafa numa encruzilhada diz "olha a macumba". Os dicionários recentes registram esse sentido, "oferenda colocada nas encruzilhadas", e os linguistas explicam que ele veio do nome do culto, por extensão: a parte passou a ser chamada pelo nome do todo.
Dentro do terreiro, ninguém chama assim. Uma oferenda tem nome, destinatário e motivo. Pode ser um padê, um agradecimento, um pedido de caminho aberto, e cada elemento ali tem uma razão de estar, como expliquei em o que cada elemento de uma oferenda significa. Chamar de "macumba" trata como feitiço genérico o que é, para quem entregou, um ato de fé com endereço certo.
Se você encontrar uma oferenda na rua, a regra é simples: contorne e siga, sem medo e sem deboche. Escrevi sobre isso com mais detalhe em encruzilhada de rua ou de cemitério.
Então posso ou não posso dizer "macumba"?
A palavra em si não é proibida. O que pesa é quem diz, como diz e para quê.
Muita gente de terreiro usa "macumba" e "macumbeiro" com orgulho, entre os seus, justamente para tirar da palavra o veneno que puseram nela. Ordep Serra registra que, para o sociólogo Reginaldo Prandi, o termo foi perdendo o sentido pejorativo e passou a ser usado para falar das religiões dos orixás em geral. Mas o próprio Serra conta que, nos centros que pesquisou, ainda encontrava a palavra usada como ofensa.
Uma regra prática:
- Se você é da religião, use como quiser, com a consciência de que a palavra carrega história.
- Se você não é, chame cada religião pelo nome dela: Umbanda, Candomblé, Quimbanda, Tambor de Mina, Batuque, Jurema. Dá o mesmo trabalho e mostra respeito.
- "Chuta que é macumba", "fizeram macumba pra fulano" e expressões do tipo nunca são neutras. Elas repetem, em tom de piada, a mesma ideia das páginas policiais de 1870: de que a fé dos negros é coisa de crime e de feitiço.
Aviso importante. Este texto é informativo e trata da história de uma palavra. Ele não ensina nem autoriza nenhuma prática religiosa, oferenda ou trabalho espiritual — isso só se aprende dentro de uma casa séria, com quem tem fundamento. Se você sofre discriminação por causa da sua fé, saiba que intolerância religiosa é crime no Brasil (Lei 7.716/89 e Constituição Federal, artigo 5º, VI).
Perguntas frequentes
Macumba é uma religião?
No fim do século XIX, no Rio de Janeiro, "macumba" nomeava cultos de negros das periferias que estão entre as raízes da Umbanda. Hoje a palavra virou um rótulo genérico, quase sempre ofensivo, jogado sobre todas as religiões de matriz africana. Cada uma delas tem nome próprio: Umbanda, Candomblé, Quimbanda, Tambor de Mina, Batuque.
Chamar alguém de macumbeiro é ofensa?
Depende de quem fala e de como fala. Muita gente de terreiro usa a palavra com orgulho, entre os seus. Dita por quem é de fora, como acusação ou deboche, é ofensa, e a história da palavra mostra por quê: ela entrou nos jornais pelas páginas policiais, associada a feitiçaria e a "pior gente".
Macumba e Candomblé são a mesma coisa?
Não. Um jornal do Rio de 1880 já mostra a diferença: uma nota assinada por "Os candomblés" pedia à polícia que fechasse as casas onde se dançava "a tal macumba". Eram grupos distintos e até rivais. Só bem depois o uso leigo passou a chamar tudo de macumba.
Macumba é magia negra?
Não. O sentido de "magia negra" veio depois, derivado do nome dos cultos, e os próprios dicionários de hoje o marcam como impróprio ou como visão leiga. Ele nasceu do preconceito contra as religiões de matriz africana, não do que se pratica nelas.
O instrumento chamado macumba ainda existe?
Os dicionários o registram como instrumento antigo de percussão, de origem africana, uma espécie de reco-reco de som rascante que era tocado nos terreiros. Hoje quase ninguém o conhece por esse nome, e foi o sentido religioso que sobreviveu.
Oya Tùnde
Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu
Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →