As principais Pomba Giras da Umbanda: quem é cada uma e o que muda entre elas

Por Yalorixá — Segredos da Encruzilhada • 13 de setembro de 2026 • Leitura de 9 min
Resposta direta

Não existe uma Pomba Gira só. Existem dezenas de nomes dentro da mesma falange, cada um com energia, preferências e função próprias — Maria Padilha, Pombagira Rainha, Maria Molambo, Pombagira Sete Saias, entre outras. Tratá-las como se fossem uma única entidade com nomes diferentes apaga o que cada uma tem de particular.

No artigo sobre quem é a Pomba Gira, já apresentei uma lista rápida das mais conhecidas. Este texto existe para ir além da lista: explicar de onde vem cada nome, o que a literatura séria registra sobre elas e, principalmente, o que muda de uma para outra — porque tratar "Pomba Gira" como se fosse uma entidade única, com nomes intercambiáveis, é um erro que se repete até dentro da própria religião.

A confusão é compreensível. Fora do terreiro, "Pomba Gira" virou quase um rótulo genérico. Dentro dele, cada nome carrega uma identidade construída ao longo de décadas, sustentada por cantiga, oferenda e função de trabalho próprias.

Sete mulheres vestidas de vermelho e preto, cada uma com um estilo diferente, reunidas ao redor de um candelabro com sete velas vermelhas acesas dentro de uma capela antiga, rosas vermelhas espalhadas pelo chão
Sete presenças diferentes reunidas em uma só imagem — representando a multiplicidade de nomes e trabalhos que a linha de Pombagira reúne, não uma entidade só.

Por que existem tantas Pomba Giras diferentes?

Porque, como já expliquei no artigo sobre a diferença entre os Exus, a falange de Exu não é uma entidade única com apelidos — é uma estrutura inteira, com muitas categorias e muitos nomes próprios dentro de cada categoria. Pombagira é a face feminina dessa falange, e o mesmo princípio vale para ela: singular e plural ao mesmo tempo.

Isso não é invenção de terreiro nem exagero de romance popular. É o que a pesquisa acadêmica sobre o tema registra com todas as letras.

Dado com fonte

O sociólogo Reginaldo Prandi, professor da USP, escreve: "Pombagira é singular mas é também plural. Elas são muitas, cada qual com nome, aparência, preferências, símbolos e cantigas particulares." Em seguida, ele lista as mais conhecidas entre dezenas: "Pombagira Rainha, Maria Padilha, Pombagira Sete Saias, Maria Molambo, Pomba Gira da Calunga, Pombagira Cigana, Pombagira do Cruzeiro, Pombagira Cigana dos Sete Cruzeiros, Pombagira das Almas, Pombagira Maria Quitéria, Pombagira Dama da Noite, Pombagira Menina, Pombagira Mirongueira e Pombagira Menina da Praia."

Fonte: PRANDI, Reginaldo. "Pombagira e as faces inconfessas do Brasil". In: Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996, capítulo IV, pp. 139-164.

1. Quem é Maria Padilha e por que ela é a mais conhecida?

Maria Padilha é, provavelmente, o nome mais popular entre todas as Pombagiras. A tradição a descreve como espírito de uma mulher muito bonita, branca e sedutora, que em vida teria sido uma prostituta de alta classe ou cortesã influente — figura de luxo, e não de miséria.

Há até uma tentativa literária de dar biografia histórica a esse nome: a escritora Marlyse Meyer publicou, em 1993, um livro reconstituindo a trajetória de uma suposta amante do rei Pedro I de Castela, no século XIV, também chamada Maria Padilha. É uma construção baseada em documentos ibéricos antigos — interessante como pesquisa, mas sem prova nenhuma de que seja a origem real da entidade cultuada aqui. A ligação é, na melhor das hipóteses, um avatar imaginário que a devoção popular pode ou não ter incorporado ao longo do tempo.

O que importa para quem frequenta terreiro não é essa genealogia duvidosa: é o que ela trabalha hoje, e isso já está detalhado no artigo sobre Pomba Gira — autoestima, libertação de relação que adoece, força para recomeçar.

2. Quem é a Pomba Gira Rainha?

Enquanto Maria Padilha é a mais popular, a Pombagira Rainha é a de posição mais alta dentro da hierarquia da linha. A tradição situa o trono dela na chamada Encruza-Maior — a encruzilhada em T cujas próprias ruas nascem de outras encruzilhadas em T.

O respeito a essa posição é levado a sério dentro do fundamento: oferenda destinada a outra Pombagira não se deposita no lugar da Rainha. Fazer isso é considerado desrespeito grave à hierarquia da falange, não um simples detalhe de organização.

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3. Quem é Maria Molambo?

Maria Molambo é a Pombagira que sempre se veste de trapos — "molambo" é justamente isso, pano velho, roupa gasta. Ela trabalha com quem chegou ao fundo: miséria, humilhação, abandono.

Autores umbandistas registram uma biografia contada dentro da própria tradição oral: ela teria sido, ao final do período colonial brasileiro, uma noiva prometida a um herdeiro influente que fugiu com outro homem por amor, foi perseguida pela família ultrajada, viu o amante ser morto e voltou humilhada para casa. Depois disso, teria criado a filha sozinha, caído na prostituição, enviuvado da própria sorte e só recuperado dignidade ao herdar bens da família — dedicando o resto da vida à caridade antes de entrar para a linha de Pombagira.

É importante ser honesta sobre o estatuto dessa história: ela circula como narrativa de tradição oral registrada por autores da própria Umbanda, não como fato histórico documentado. Isso não diminui a entidade nem o respeito devido a ela — só evita apresentar como certeza o que é, de fato, mito de fundamento. O mesmo cuidado que já apliquei ao falar do ponto riscado vale aqui: tradição oral tem valor e verdade próprios, diferentes de documento histórico.

4. Quem é a Pomba Gira Sete Saias?

A Pombagira Sete Saias é uma das mais conhecidas dentro da falange — está entre os nomes citados por Prandi e presente em fórmulas ritualísticas registradas na literatura umbandista, geralmente ligada a trabalhos de transformação: virar uma situação travada, mudar o rumo de uma relação, converter oposição em aliança.

Não existe uma explicação única e documentada para a origem do nome "sete saias". Como acontece com a maioria dos nomes de Pombagira, o significado se transmite de terreiro em terreiro por tradição oral — algumas casas associam o número sete à multiplicidade de caminhos que a entidade percorre, outras têm leitura própria. Nenhuma dessas versões está "errada"; nenhuma delas é a única certa.

Vale o mesmo aviso de sempre: a literatura umbandista registra fórmulas detalhadas de oferenda para trabalhos específicos com Pombagira Sete Saias. Este blog não ensina, não reproduz nem recomenda a execução dessas fórmulas por conta própria — pelos mesmos motivos já explicados no artigo sobre padê para Exu. Trabalho espiritual direcionado é assunto de terreiro, com fundamento e acompanhamento.

5. Quem é a Pomba Gira Cigana?

A Pombagira Cigana está ligada à leitura de destino, à estrada, à liberdade de partir. É presença mais leve e faladeira que outras, associada também a trabalhos de amor e permanência — a literatura registra fórmulas de oferenda a ela voltadas justamente para fortalecer um vínculo amoroso.

Não confundir a Pombagira Cigana com a Cigana da linha da direita, entidade distinta que também aparece em giras de Umbanda — outro exemplo de como um mesmo arquétipo popular ("cigano") se desdobra em entidades diferentes dependendo da linha em que trabalha.

6. Quem é a Pomba Gira Menina?

A Pombagira Menina tem vibração mais jovem e brincalhona, e costuma ser associada a trabalhos ligados a tristeza antiga e situações de infância mal resolvida. Ela guarda, na linha feminina, um paralelo com o que já expliquei sobre Exu Mirim: energia infantil como arquétipo de atuação, não como biografia real de alguém que morreu criança.

7. Quem é a Pomba Gira Dama da Noite?

A Pombagira Dama da Noite está ligada ao trabalho noturno da esquerda, à discrição e a demandas que pedem sigilo. É um dos muitos nomes que aparecem na lista de Prandi citada acima, e como os demais, tem cantiga, preferência e forma de se apresentar próprias — mesmo quando a literatura disponível sobre ela é mais escassa que sobre Maria Padilha ou a Rainha.

Como saber qual Pomba Gira trabalha na minha casa?

Essa é, de longe, a pergunta que mais chega depois de uma lista como esta — e a resposta honesta é: isso não se escolhe, não se descobre por afinidade com um nome bonito e não se define numa busca de internet.

Qual Pombagira se manifesta em qual médium é revelado dentro do processo de desenvolvimento mediúnico, acompanhado pelo dirigente da casa. Não existe teste, formulário ou "identifique sua entidade" que substitua isso — e quem oferece esse tipo de serviço pronto, fora do terreiro, está vendendo o que a religião não vende.

Se você sente atração por alguma dessas entidades e ainda não é de terreiro, a pergunta certa não é "qual delas é a minha" — é "com quem eu deveria conversar". A resposta séria sempre aponta para uma casa de Umbanda, nunca para uma resposta pronta.

Aviso importante. Este artigo é informativo e não ensina, não descreve e não autoriza oferenda, trabalho ou firmeza para nenhuma das entidades citadas por conta própria. As biografias de tradição oral aqui apresentadas não substituem o fundamento transmitido dentro de uma casa de santo. Se você sente ligação com alguma dessas entidades, procure um terreiro sério e converse com quem o dirige.

Perguntas frequentes

Pomba Gira Sete Saias e Maria Padilha são a mesma entidade?

Não. São duas Pombagiras diferentes dentro da mesma falange, cada uma com nome, cantiga, preferências e função próprias. A literatura de Umbanda registra dezenas de nomes distintos — Maria Padilha e Sete Saias estão entre os mais conhecidos, mas não se confundem.

O nome "Sete Saias" significa sete casamentos ou sete amores?

Não existe uma explicação única e documentada para a origem do nome. Como acontece com a maioria dos nomes de Pombagira, o significado se transmite por tradição oral, de terreiro em terreiro, e pode variar. O que está registrado com segurança é que ela é uma das Pombagiras mais conhecidas e ligada a trabalhos de transformação.

Toda Pomba Gira trabalha do mesmo jeito?

Não. Cada uma tem nome, aparência, preferências, símbolos e cantiga particulares, segundo a própria literatura acadêmica sobre o tema. Maria Padilha, Pombagira Rainha, Maria Molambo e as outras não são intercambiáveis — cada uma responde a um tipo de pedido e de trabalho.

Como sei qual Pomba Gira trabalha comigo ou na minha casa?

Isso não se descobre sozinho, em pesquisa de internet ou por afinidade com o nome. É a manifestação dentro do terreiro, acompanhada pelo dirigente, que revela qual Pombagira se apresenta para cada médium. Se você não é de terreiro, a pergunta certa não é "qual é a minha", é "com quem eu deveria conversar".

Por que os nomes de Pomba Gira mudam de terreiro para terreiro?

Porque o culto de Pombagira se transmite sobretudo por tradição oral e por pontos cantados, não por um texto doutrinário único. Isso é reconhecido pela própria literatura acadêmica sobre o tema. Uma casa pode dar mais destaque a um nome, outra a outro — nenhuma versão anula a outra.

Oya Tùnde, Yalorixá

Oya Tùnde

Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu

Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →