Nomes dos Pretos Velhos: Pai Joaquim, Vovó Maria Conga e o que cada nome conta
Não existe lista oficial, mas a pesquisa registra entre os mais conhecidos Pai Joaquim, Pai Benedito, Pai José, Pai Francisco, Vovó Maria Conga, Vovó Catarina e Vovó Cambinda. O nome junta um tratamento de família (Pai, Vovó, Tio), um nome cristão e, muitas vezes, a terra africana de origem, como Angola ou Congo.
Quem começa a frequentar gira de Preto Velho logo repara que os nomes se repetem. Em casas diferentes, em cidades diferentes, aparece de novo um Pai Joaquim, uma Vovó Maria Conga, um Pai Benedito. E vêm as perguntas: são os mesmos? Quem foram em vida? Existe uma lista dos principais?
Este texto responde com o que a pesquisa registrou de fato, e com honestidade sobre o que ninguém consegue provar. Quem são os Pretos Velhos e como atendem está em Preto Velho na Umbanda. Aqui o assunto é o nome: o que ele conta, de onde vem e por que muda de uma casa para outra.
Quais são os nomes de Pretos Velhos mais conhecidos?
A antropóloga Eufrázia Cristina Menezes Santos, professora da Universidade Federal de Sergipe, estudou o Preto Velho no mestrado que defendeu na Unicamp e registrou os nomes que mais apareciam nos terreiros e na literatura da religião:
Dado com fonte
"À categoria dos pretos velhos liga-se uma pluralidade de personagens com feições e traços específicos, estando entre os mais conhecidos: Pai Joaquim, Pai Tomás, Pai Benedito, Vovó Catarina, Pai João, Pai Tomé, Pai Francisco, Vovó Maria Conga, Vovó Maria, Vovó Cambinda e Pai José."
Fonte: SANTOS, Eufrázia Cristina Menezes. "A construção simbólica de um personagem religioso: o preto velho". Tomo, Universidade Federal de Sergipe, n. 11, p. 161-195, jul./dez. 2007 (trecho na p. 186).
Repare na expressão da autora: "entre os mais conhecidos". Não é uma lista fechada nem uma hierarquia. Nenhum órgão da Umbanda define quem são os principais Pretos Velhos, do mesmo jeito que não existe uma lista única das Sete Linhas. Os nomes famosos são os que mais aparecem nas casas, nos pontos cantados e nas imagens de gesso, e isso muda de região para região.
O que o nome de um Preto Velho conta?
Quase todo nome de Preto Velho tem três partes, e cada uma guarda uma lembrança diferente.
O tratamento de família. Pai, Mãe, Vovô, Vovó, Tio, Tia. Santos registra que os Pretos Velhos são sempre chamados assim, que quem vai à consulta pede a bênção e beija a mão deles, e que eles respondem chamando a pessoa de filho ou de neto. O tratamento já diz o lugar que ocupam: o de um mais velho da família, a quem se pede conselho.
O nome cristão. Joaquim, José, Benedito, Francisco, Catarina, Maria. São nomes de santo, e isso também é memória. Santos mostra que a Igreja tratou de cristianizar os africanos escravizados, em muitos casos com batismo já na chegada (ponto em que os historiadores não concordam), e que a devoção a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário se espalhou entre os negros pelas irmandades. É o tipo de nome que o cativeiro dava, não o que a pessoa trazia da África.
A terra ou o lugar. "De Angola", "do Congo", "da Guiné", "de Aruanda", "do Rosário". É a parte que funciona como sobrenome, e a que mais conta sobre a história.
O que querem dizer "de Angola", "do Congo" e "de Aruanda"?
O psicólogo Rafael de Nuzzi Dias, da USP, fez a pesquisa de mestrado dentro de um terreiro de Umbanda de Ribeirão Preto (SP). Ali, a comunidade explicava que os Pretos Velhos se dividem em "correntes", conforme a origem africana, seja por nascimento, seja por herança dos antepassados, no caso dos que nasceram no Brasil:
Dado com fonte
"As correntes largamente mencionadas são: Congo, Africana, Cabinda, e Guiné. Entretanto, já ouvi menções à existência de outra corrente menos comum, a Moçambique, e é possível que existam outras."
Fonte: DIAS, Rafael de Nuzzi. Correntes ancestrais: os pretos-velhos do Rosário. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2011, p. 146, nota 80.
O autor faz uma ressalva que vale para quem lê: naquele terreiro, a corrente aparecia só em algumas orações e como complemento do nome, sem mudar em nada o jeito de trabalhar. O chefe da casa, Pai José do Rosário, é da corrente de Angola, e outro Preto Velho saudado ali é o Pai Constâncio do Congo. O sobrenome é memória de origem, não especialidade.
E a memória é concreta. Gilda Portella Rocha e colegas, da Universidade Federal de Mato Grosso, citam o pesquisador Nei Lopes (2011) para lembrar que "Angola" era o termo usado no Brasil "para designar o escravo embarcado no porto de Luanda". A mesma cidade estaria por trás de Aruanda, a morada dos Pretos Velhos nos pontos cantados: segundo o verbete de Lopes citado por eles, a memória coletiva do negro brasileiro teria conservado a lembrança de São Paulo de Luanda, capital de Angola, como "pátria distante, paraíso da liberdade perdida, terra da promissão".
Quando um Preto Velho diz que vem de Aruanda, então, o nome do lugar sagrado guarda o nome de um porto de onde saíram navios negreiros. Sobre Vovó Cambinda, uma nota de honestidade: o nome soa como Cabinda, uma das correntes que Dias registrou, e é assim que muita gente o entende, mas nenhuma das fontes que consultei documenta essa ligação.
Quem é Pai Joaquim de Angola?
É provavelmente o nome mais lembrado. Santos abre o estudo com ele: um quadro que viu "repetidas vezes em casas de família, estabelecimentos comerciais e instituições religiosas", com um negro idoso fumando cachimbo num toco de árvore, uma guia no peito nu, calça branca de algodão e um casebre de sapé ao fundo. O personagem do quadro, ela conta, se chama Pai Joaquim.
A mesma figura está nas imagens de altar. No Centro Espírita Pai Jeremias, em Cuiabá, Rocha e colegas descreveram 30 estátuas de Pretos e Pretas Velhas, e Pai Joaquim de Angola aparece mais de uma vez: sentado num toco, cabelo e barba brancos, sem camisa, calça branca dobrada, cachimbo na mão. Sobre o nome, os autores escrevem que ele "é referência à nação africana de Angola".
O que a pesquisa não traz é uma biografia, quem foi o Pai Joaquim em vida. As histórias que circulam são tradição oral, contadas pela própria entidade na casa onde trabalha ou pelos mais velhos. Têm valor para a fé daquela casa, mas não são documento histórico. É o mesmo cuidado que este blog teve com a história da Maria Molambo, no artigo sobre as principais Pomba Giras.
Quem é Vovó Maria Conga?
O nome traz o Congo no feminino. Entre as Pretas Velhas, é das mais citadas, e a pesquisa registra um traço dela. Para o pai de santo José Antônio de Lima, entrevistado por Santos, "Vovó Maria Conga é uma preta velha que foi parteira".
Santos explica que as Pretas Velhas costumam ser lembradas pelos ofícios que tinham em vida, como parteiras, amas de leite ou rezadoras, e que esses ofícios definem o que se procura nelas. Registra também que, em geral, as Pretas Velhas têm lugar especial para crianças, gestantes e problemas de família. No terreiro estudado por Dias, a imagem de Mãe Maria Conga mostra uma velha de lenço vermelho na cabeça e vestido branco, sentada num toco, pitando cachimbo.
Uma ressalva necessária: ser lembrada como parteira é memória do cativeiro, não indicação de saúde. Gestação se acompanha com médico ou com parteira profissional, e nenhuma casa séria diz o contrário.
Um guia de Umbanda escrito por quem está dentro
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Quero ser avisada quando sairE os outros nomes da lista?
Pai Benedito. Leva o nome do santo que, segundo Santos, cedo virou protetor dos negros no Brasil: São Benedito, morto em 1589, que divide com Nossa Senhora do Rosário o posto de devoção mais antiga da população negra do país. Ela registra ainda que, na literatura umbandista, o comando da linha dos Pretos Velhos é associado a três santos: São Benedito, Santo Cipriano e São Miguel. No terreiro estudado por Dias, Pai Benedito aparece numa imagem ao lado de Tia Maria, os dois como um casal de idosos com cicatrizes, presos por correntes a pilões. É a escravidão posta no altar, sem disfarce.
Pai José. Pai José do Rosário dá nome ao terreiro que Dias estudou e é o chefe espiritual da casa; Rocha e colegas descrevem também uma imagem de Pai José de Aruanda. O "do Rosário" faz pensar em Nossa Senhora do Rosário: Santos cita um levantamento (Lody, 1987) segundo o qual os escravizados vindos de Angola ficavam, de preferência, nas irmandades do Rosário.
Vovó Catarina, Pai Tomás, Pai Tomé, Pai Francisco e Vovó Maria. Estão na lista de Santos, e Vovó Catarina e Pai Tomás também entre as imagens de Cuiabá, mas as fontes não trazem um traço próprio de cada um. Qualquer "perfil" desses nomes que se encontre por aí vem da tradição de alguma casa, não da pesquisa.
Escrava Anastácia. É um caso à parte. Pelas versões da história que Santos resume, morreu jovem, castigada com coleira e máscara de ferro, e não é reconhecida pela Igreja, mas fiéis a tratam como santa na Igreja do Rosário, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, a imagem dela aparece ao lado das dos Pretos Velhos nos dois altares estudados, e no terreiro de Dias ela é contada entre as pretas-velhas, embora ninguém ali a incorpore.
Pai João é um Preto Velho ou um personagem do folclore?
Os dois, e vale separar. Pai João está na lista de Santos como nome de Preto Velho. Antes de chegar aos terreiros, porém, ele já era personagem do folclore e da literatura. O folclorista Arthur Ramos, citado pela autora, o descreveu assim:
Dado com fonte
"Pai João é antítese do quilombola revoltado. A sua resignação gerou o folclore."
Fonte: RAMOS, Arthur (1954), citado por SANTOS, Eufrázia Cristina Menezes. "A construção simbólica de um personagem religioso: o preto velho". Tomo, Universidade Federal de Sergipe, n. 11, jul./dez. 2007, p. 165.
Santos mostra que esse Pai João virou "emblema do bom escravo": obediente, humilde, conformado com o lugar que lhe deram. E mostra que ele não foi o único. No folclore feito pelos próprios negros, Pai João zomba do senhor e responde às ofensas de igual para igual.
Por isso, quando um Pai João se apresenta numa gira, ele não é o personagem do livro. O nome é o mesmo, mas a figura que a Umbanda cultua carrega as duas memórias, a da paciência e a da resistência, como explica o artigo sobre o Preto Velho na Umbanda.
Por que o mesmo Preto Velho aparece em vários médiuns?
Porque, para muita gente de terreiro, o nome não é de uma pessoa só. Uma fala registrada por Santos mostra isso sem querer: a umbandista não diz que a preta velha dela é "a" Maria Conga, diz que é "uma" Maria Conga.
Dado com fonte
"Minha preta velha que é uma Maria Conga, ela vai rezar coisas que você nunca ouviu, nem vai ouvir, porque são coisas dela, da origem dela, não foi estudada, não está no livro."
Fonte: Conceição Reis, jornalista umbandista, em depoimento registrado por SANTOS, Eufrázia Cristina Menezes. "A construção simbólica de um personagem religioso: o preto velho". Tomo, Universidade Federal de Sergipe, n. 11, jul./dez. 2007, p. 186.
Na vivência de terreiro, é comum ouvir que o nome indica uma família de espíritos que trabalham de um jeito parecido, e não um único espírito presente em mil lugares ao mesmo tempo. Cada casa explica isso à sua maneira, e é a explicação da casa que vale ali dentro.
O nome também não é fixo. Dias conta que, no terreiro que estudou, foi anunciado que a alma de uma senhora da família que dirige a casa, filha de escravizados e falecida cerca de dez anos antes, seria preparada para trabalhar como preta-velha, talvez como "Vó Inocência". A comunidade avisava, porém, que ela poderia se apresentar com outro nome, ligado a alguma vivência da última encarnação. O caso mostra ainda outra coisa: para aquela comunidade, o Preto Velho pode ser um antepassado da própria família, assunto de ancestralidade na Umbanda.
Como saber o nome do meu Preto Velho?
Dentro de uma casa, com o tempo. Não existe teste, lista nem cálculo que revele o nome do guia de alguém. Ele se apresenta no desenvolvimento mediúnico, acompanhado por quem dirige a casa, e é confirmado ali. Quem promete descobrir pela internet, por data de nascimento ou por consulta paga avulsa está vendendo outra coisa.
E se o nome que se apresentar não estiver em lista nenhuma, está tudo certo. A lista de Santos é dos mais conhecidos, não dos únicos. O que importa é o trabalho que o guia faz e a casa que responde por ele, não a fama do nome.
Aviso importante. Este texto é informativo e trata de história e de conceitos. Ele não ensina nem autoriza nenhuma prática religiosa, invocação, oferenda ou trabalho espiritual — isso só se aprende dentro de uma casa séria, com quem tem fundamento. Rezas, ervas e benzeções não substituem diagnóstico nem tratamento médico ou psicológico, e isso vale também para gestação e parto: acompanhe com médico ou parteira profissional. Se você sofre discriminação por causa da sua fé, saiba que intolerância religiosa é crime no Brasil (Lei 7.716/89 e Constituição Federal, artigo 5º, VI).
Perguntas frequentes
Quais são os Pretos Velhos mais conhecidos na Umbanda?
A pesquisa da antropóloga Eufrázia Santos registra entre os mais conhecidos Pai Joaquim, Pai Tomás, Pai Benedito, Vovó Catarina, Pai João, Pai Tomé, Pai Francisco, Vovó Maria Conga, Vovó Maria, Vovó Cambinda e Pai José. Não é uma lista oficial: os nomes mudam de casa para casa e de região para região.
Por que tantos Pretos Velhos são "de Angola" ou "do Congo"?
O complemento do nome lembra a origem africana atribuída à entidade. Num terreiro estudado pela USP, os Pretos Velhos se dividiam em correntes como Congo, Africana, Cabinda e Guiné, e "Angola" era o termo usado no Brasil para o escravizado embarcado no porto de Luanda.
O que significa Aruanda?
É a morada mítica dos Pretos Velhos e de outras entidades nos pontos cantados. O pesquisador Nei Lopes, citado em estudo da UFMT, liga o nome a São Paulo de Luanda, capital de Angola, lembrada pela memória negra como pátria distante e paraíso da liberdade perdida.
Por que os Pretos Velhos têm nomes de santo?
Porque são nomes do cativeiro. A Igreja procurou cristianizar os africanos escravizados, e santos como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário se tornaram devoções da população negra. Joaquim, José, Benedito e Maria são o tipo de nome que o escravizado recebia no Brasil.
Como descobrir o nome do meu Preto Velho?
Só dentro de uma casa de Umbanda, no desenvolvimento mediúnico, com o acompanhamento de quem a dirige. Não existe teste, lista ou cálculo que revele o nome de um guia, e desconfie de quem promete isso pela internet.
Oya Tùnde
Yalorixá · Filha de Oyá · Nação Ketu
Yalorixá em atividade de terreiro, responsável por uma casa de axé. Escreve neste blog sobre Umbanda com a autoridade de quem vive a religião — não de quem observa de fora. Conhecer →